segunda-feira, 3 de junho de 2013

A história da Fita Verde No Cabelo

Fita Verde No Cabelo (Nova velha história)
Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor,
com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que
esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam.
Todos com juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a
que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita
inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a
amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita - Verde
partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha
um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar
framboesas.
Daí, que, indo no atravessar o bosque, viu só os lenhadores,
que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido, nem
peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então
ela, mesma, era quem dizia: "Vou à vovó, com cesto e pote, e a
fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou". A aldeia
e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a
gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não
são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá,
louco e longo e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas
ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós.
Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com
inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e
com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeinhas flores,
princesinhas e incomuns, quando a gente tanto passa por elas
passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe
respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
-"Quem é?"
-"Sou eu..." - e Fita Verde descansou a voz. - "Sou sua linda
netinha, com cesto e com pote, com a Fita Verde no cabelo, que
a mamãe me mandou."
Vai, a avó difícil, disse: - "Puxa o ferrolho de pau da porta,
entra e abre. Deus a abençoe."
Fita Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar
agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim
defluxo. Dizendo: -"Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para
perto de mim, enquanto é tempo."
Mas agora Fita Verde se espantava, além de entristecer-se de
ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo
atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela
perguntou:
-"Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos
tão trementes!"
-"É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha
neta...." - a avó murmurou.
-"Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados".
-"É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta..."
- a avó suspirou.
-"Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto
encovado, pálido?"
-"É porque já não estou te vendo, nunca mais, minha
netinha...." - a avó ainda gemeu.
Fita Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela
primeira vez.
Gritou: - "Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!..."
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado
ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.
Guimarães Rosa

Aline

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